retorno para mim mesma

‘andei por andar, andei
e todo caminho deu no mar’
(dorival caymmi)

Estava prestes a estourar, feito balão de aniversário enchido além da conta. Só conseguia pensar em tempos longe de tudo e de todos. Pedi dez dias de férias entre os feriados e uma semana deles passei na praia, sendo cinco absolutamente sozinha. Na minha anarquia recém-criada não havia horários para dormir ou acordar, nem para comer ou meditar. Havia apenas o que desse vontade, fosse de tevê ou de mar. E silêncio. Sagrado e merecido.

No meu infinito particular pus os pés na areia e o coração na balança. Vi o que agrada e o que dói. Li biografia querida há tempos, vi reprises de seriados, preparei comidas para uma porção, meditei e pratiquei mantras e posturas de yoga. Num dos dias a brisa de outono deu uma trégua, houve um pôr-do-sol acolhedor e eu mergulhei de cabeça no mar, ‘pra lavar a alma’. Em outros tudo o que a tarde pedia era uma sesta bem dormida: eu ficava com a janela aberta para ver o céu azul, esparramada na cama de casal com consistência de nuvem, e acordava feito criança após soneca de meio dia.

Vi os flamingos que passeiam quando o litoral está deserto, catei conchinhas para enviar pelo correio a quem faz falta, e resolvi voltar a gostar de mim. No caminho de ida, fui com o rosto para fora da janela do carro, com cabelos ao vento feito cachorro de madame. No rádio tocava chico e no céu havia tantas estrelas que pareciam um monte de grãos de areia que inverteram de locação. Foi a certeza que eu precisava de que algo bom me esperava. Na volta não era noite e não havia companhia. Havia um ônibus com desconhecidos, chuva do lado de fora e o meu assento, por acaso, calhou de ser o do meu número da sorte, como se o caixa tivesse advinhado tudo o que eu mais precisava naquele momento.

Chegando em casa me olhei no familiar espelho, não apenas para checar a pele e os cabelos, mas para encarar o saldo final: não emagreci, não mudei de emprego, não arrumei respostas. Mas já sei o caminho para fazer as perguntas.

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4 Responses to “retorno para mim mesma”


  1. 1 Ju maio 6, 2009 às 6:14 pm

    a gente às vezes precisa da nossa companhia, só nossa
    achar o caminho já é meio caminho andado
    saudade
    =)

  2. 2 Juliana maio 8, 2009 às 6:07 pm

    hoje escutei Wonderwall na rádio e lembrei-me de vc!

    Um beijo e um sorriso!

  3. 3 Bianca Garcia outubro 22, 2010 às 9:48 am

    É. Gostei muito desse texto e da sensação que ele me causou… Entendo porque vc sentiu saudade de vc.

    Beijo, beijo, beijo!


  1. 1 quieta como uma xícara « drops de anis Trackback em outubro 21, 2010 às 6:21 pm

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