o rito necessário do encontro

“(…) No dia seguinte o principezinho voltou.
– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.
– O que é um rito? perguntou o principezinho.
– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias! (…)”

(Antoine Saint-Exupéry, “Le petit prince”)

 

Não sei se foi costume de criança, de educação ou de ver outra pessoa. Nunca parei para pensar daonde vêm certos hábitos, a verdade é que quando paramos para reparar eles já estão ali: instalados. E esse foi um deles: o de tornar tudo um rito. Lembro-me de, ainda pequena, sempre escolher a melhor roupa para ocasiões especiais. E isso incluía desde as roupas de baixo até as meias – tudo tinha que ser ‘estréia’, com cheiro e cor de roupa nova, para trazer sorte e carregar para sempre lembranças de um dia bom. Toda as vezes seguintes em que eu fosse vestir aquela roupa eu me lembraria do natal especial em que a usei pela primeira vez, ou daquele aniversário em que reuni todos os queridos para comer brigadeiro e vestia, além da blusa nova, um sorriso de orelha a orelha.

Até hoje ritualizo mesmo as coisas banais do dia-a-dia. Para mim, a arte de fazer de todos os detalhes um ritual ‘santifica’ as ações. Nada passa despercebido, nada é feito mecanicamente ou por acaso. Escolher a roupa, os detalhes, o lugar, a música. Não que ações espontâneas não sejam bem-vindas – porque são. Apenas gosto de transformar tudo ao redor com pequenas delicadezas, por uma vida menos ordinária. Mesmo sabendo que a chuva não prevista no fim do encontro é que às vezes traz as melhores recordações da noite toda, com um beijo roubado no meio do aguaceiro; para mim faz parte programar, planejar, se dedicar. Acho um cuidado todo especial para com o outro e para com nós mesmos, com a vida, pensar em todas as pequenices que engradencem as situações. Talvez seja um leve sintoma de TOC. Porque ascendente em virgem eu já sei que não é.

 

*inspirado na comunidade da Mell

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2 Responses to “o rito necessário do encontro”


  1. 1 Ju outubro 23, 2008 às 5:35 pm

    vc sabe q eu tenho pensado e planejado meu casamento até nos mínimos detalhes… o Ri acha q poucos vão notar ou reparar, mas eu não me importo…
    eu sei q os q vão reparar são os mais importantes pra mim, e é por eles [além de mim e do Ri] que penso em tudo com carinho
    =)

  2. 2 Rádamis janeiro 28, 2010 às 9:57 am

    A pois eu sofro disso também. hehehe Esse desejo que tudo deve ser especial, sim. Eu compartilho. Sabe outra sintoma que eu sofro? Síndrome de vergonha alheia, eu morro de vergonha das atitudes dos outros e chego até a ficar vermelho por eles. Se acha? hahaha
    Não sou normal, álias não somos. E, Eu gosto mais assim.


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